quarta-feira, 31 de dezembro de 2008


Edward Hopper
Assistimos ao teu fim
sem motivos para comentários.
Nos calamos, como covardes
filhos de quem somos.
Agora chegamos a um novo começo
e nada mais importa.
Nos esqueceremos de comemorar
e seguiremos, pois foi o que nos restou:
Prosseguir como sobras de nós mesmos
por atalhos facilitados...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008


Gustav Klimt - Danae


Tanto tempo
e meu desejo é que grites.
Sufoques por uma boa questão,
mas tenha voz -
própria - a tua.
Tenha medo,
mas sinta de verdade,
o medo.
Encare tuas faltas,
esteja carente.
Dê-se ao direito da imperfeição,
de algum egoísmo.
Assuma o desejo por respeito,
assuma: eu desejo...

sábado, 13 de setembro de 2008


René Magritte


Lick your cage's bars,
mas lamba com vontade,
com todo seu empenho
para manter as aparências.
Faça com que tua língua sangre
no comodismo confortável
da relação criada e alimentada
por teu fraco desejo de decisões.
Abra bem a boca
para dizer que tudo deve ser como está,
que não há outra possível interpretação.
Lick your cage's bars,
manifeste uma espécie de orgulho pelas conquistas,
mas não esqueça de controlar-se quando
quiser ser natural.
Vigie-se e continue a encontrar justificativas
para a tua imagem,
fantasia de palhaço do statu quo.
Lick your cage's bars,
como se fossem de açúcar e pudessem gastar
ou mesmo te dar algum prazer.
Mas na hora de tua morte,
morra como os pássaros engaiolados
sem muito debater-se,
sem movimentar as asas -
ou ainda pretendes voar?-
sem voz a soar.
Morra rijo, com a barriga inflada
virada para cima em tua cama king size,
e eles enterrarão teu corpo em uma terra qualquer
cuidando para que tua gaiola não fique muito tempo vazia.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Pierrot - August Macke






Falasse
e não seria mais ele.
Pensou por um instante...
A blusa vermelha,
o vermelho.
A boca silenciada
pelo desejo de que estivesse certo.
Eles se divertem...
Quer se convencer,
quer que confirmemos:
é assim, deve ser.
Não era vermelha não,
vinho; era vinho!
Não seria mais ele,
podia sentir,
deixava de ser.
Eles sentiam,
mas não ousavam:
se falassem,
ele não era mais ele.
Em meio a diversão dos outros
ele pensava: estou certo...

sexta-feira, 4 de julho de 2008



James Ensor
Caminhavas homem
mas pedra se apresentava,
e sonhando possíveis
esquecias dos caminhos.
Ias como a humanidade:
solitário por um destino,
antecipador do alheio passo,
visionário congelado.
Te perdias em vão,
no aglomerado de tarefas,
banalidades.
Iludido, tua fé te fazia clamar
e oravas por ti
por não saber mais como estar.

segunda-feira, 30 de junho de 2008



Georges Braque - Cubist Landscape

P & B

E o mundo se fez na falta de perguntar-se,
perdido entre o óbvio que não dizia respeito
e aquilo que imaginou ser a perfeição
debateu-se em gritos de incompreensão
e culpas tardias.
Pausa para respirar...
Questionar suas razões,
descobrir seu próprio mundo,
criar seus sentidos deixando para trás
tudo que entendeu por correto.
Ver para além do preto e branco
das retinas diárias
possibilidades...
(a lente deve permanecer aberta por longo tempo).

sexta-feira, 16 de maio de 2008



René Magritte





Transcorreu um tempo,
não muito,
em que cada palavra apontava
sem saber muito bem, para onde?
Tudo era simples,
nada mais do que o já repisado
da conversa cotidiana.
A vida era simples,
nada mais do que o viver cotidiano.
Mas restou a cisma,
quase doentia,
de que o sentido ainda não se mostrara.
E nisso passou o tempo,
junto ao desmanchar de minha derme,
às novas formas daquele velho rosto conhecido.
Agora, restamos nós,
com esta trava na língua,
a vontade de compreender, descobrir
e re-significar a babel a nossa volta
porque somos assim, 
doentios,
espreitamos por sentidos
diante do simples estar...

quinta-feira, 17 de abril de 2008


Einsam? (Solidão?) - Martin Kippenberger
Só sei do nada muito sabido,
investigo fraudes.
The sky is gray
and my soul poderia ser blue,
se nada fosse tão óbvio:
Tua caridade em minha cama,
meu desprezo em teu discurso.
Tem um quadro branco decorando a sala de estar
e as visitas adoram meu café, paciência...
Fui eu quem desejei,
arrumei e encenei todo drama barato.
So lonely, baby... quem sabe...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Gustave Courbet, The Oak at Flagey, 1864

Há muito percebo o silêncio
das horas tontas,
partilhadas gratuitamente
com ninguém.
Ouvidos surdos rondam,
mas é no espelho que dou de cara com o real.
Estrondoso faz-de-conta,
foi bravamente salvo por um olhar.
Ah, sorriu!

segunda-feira, 31 de março de 2008


Camille Pissarro - Boulevard Montmartre at Night


Sentou-se no assoalho diante do sorriso alheio,
pensou em outros lugares e no barulho indecifrável,
mudar tudo isto talvez fosse o caso.
Alguma proximidade e, na verdade, a sugestão da distância segura,
insinuar indiferenças, leves ausências,
gestos estudados na impaciência das dúvidas.
E agora, caminhar por entre paredes decoradas
não traz necessariamente consigo a beleza.
Deixar-se em um olhar na felicidade alheia
encontrando o conforto na pele que roça.

segunda-feira, 3 de março de 2008


Félix Vallotton, Mulher nua olhando-se em um espelho (1906)
Retorno
da tua boca seca
com meu nome entredentes,
e o vislumbre do sal na pele daquele
carrega meu sorriso naif
pelas férias experimentadas de nós mesmos.
É verão,
um mergulho,
e mais tarde volto para tua cama, amor,
como mandam os bons modos
e minha hipocrisia...