domingo, 23 de dezembro de 2007

Caspar David Friedrich, Monge no mar, 1809

Pingavam gotas grossas da paleta
já sem sentido,
mas o tema diluído em aguarrás
inaugurou uma nova perspectiva.
Escorço da imagem de si mesmo
a tela serviu-lhe de espelho
refletindo o motivo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007



Oswaldo Goeldi -Abandono
A noite
Botões do casaco fechados de cima a baixo
Andar e seus pés não reconhecerem o solo como piso
Nada restou do expectador - The Great Expectations
Dar-se ao
Outro e
Nada sobrar
Olvido...
Líquido
o amor por entre teus olhos
      esvaziado
               vazado
azul cegado.
Negado o foco
lente da tragédia
          banal.
Em panorâmica 
  cortado
     antes do final.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007


M. L. Acosta – “La piedra 1” (“The stone”) -2003

O mundo é absurdo,
um sem-fundo.
Um surdo
que não consegue ouvir minha voz
gritar em desespero.
Um sem mais,
incapaz de ecoar meus gestos exagerados
na lenta queda abismal.
Discurso,
e no dito curso da fala
abre-se o silêncio do pensado -
para fora do caminho
já ordenado por princípio.
Discurso,
silenciando pois
muito mais do que
o reivindicado.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007


George Frederick Watts - Hope
Soou frágil

a boca chorosa
                                    e muda
engolindo
                  as expectativas
do teu mundo
                          encantado.

                              

terça-feira, 9 de outubro de 2007


John Everett Millais - Ophelia
Perder-se,
em meio ao excesso
estar diante do sem sentido
e não saber sequer para onde.

Transitar de lá para cá
entorpecido por seus
medos e angústias.
Banal?

Verbalizar em primeira linha
o assombro indizível
e calar-se na escuta pela resposta.

Lugar comum existencial,
figura de linguagem
para o muito já dito.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Kawanabe Kyosaï, Souris transcrivant un livre

Outrora (hoje)
Lia (não vê mais nada)
Possibilidades (além dos seus chinelos pela manhã).
Ontem linha,
hoje um plano,
amanhã desfaz-se o ponto.

Lento descoser
das tramas, entrelaces
e nós do estabelecido
que nunca o foi de vez.

Ilusão da coberta,
do mapa, traçado e constructo
do assim viver.

Ontem linha,
hoje um plano,
amanhã...

terça-feira, 11 de setembro de 2007


"Ventana V," by Guillermo Munoz Vera


Senti minha própria ausência
em um observar do caminho diário.
Ultrapassei a paisagem
como se nada mais houvesse
para ser presenciado.
Afastei-me de meu existir
em um mecânico vagar
e nada mais me estupefazia.
Estupefazer?, estupefaz?
estúpida farra em que caí
quando não dei conta de mim
e pensava estar somente a caminhar.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007


Oskar Kokoschka - The Dreaming Youths - Sleeping Girl





E então fui, e a resposta ao mais importante, ao aprendido, apreendido, guardado, ruminado, revisado e, muitas vezes, ainda assim mal usado, escoava. Alimentei a volta da questão interrogante de meu reflexionar raso, mas ela não frutificava. O grau superlativo e relativo ao longo dos anos, tão poucos... Tantos anos de aprendizado para saber-se jamais sábio-sabichão; reconhecer-se como aquele que vai fenecer e tem diante de si a tarefa, a missão, o destino e a decisão de apontar com perícia e precisão a adverbiada relação. O tirado como lição ao longo do tempo vivido. Mas a resposta volta sobre si mesma - feedback - o vital, o procurado, é o ato: perguntar. Perguntar-se, ter-se sempre em questão, está aí o valoroso, a valiosa aprendizagem necessária, o sempre visado na tarefa eternamente inconclusa de ser-me.
Este texto foi feito a partir da questão proposta pela Mélica, "A coisa mais importante que aprendi ao longo dos anos?". Mélica, espero que o feedback faça sentido...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007


Amedeo Modigliani - retrato de Lunia Czechovska


Ana tinha uma rede no cabelo - algo muito fora de época - e andava assim mesmo pelas ruas do bairro; a blusa amarela quadriculada, a saia cinza, um sapato escuro e duro. Ana era figura sem tempo caminhando da padaria para a loja de verduras. Um cumprimentar discreto em tom muito baixo. Era magra. Não era velha. Era nova, bem nova, na casa dos 25 anos, mas usava rede no cabelo - algo que trazia de outras vivências. Era só, não se sabe se solitária. Reservada, isso sim, com certeza. Quase nunca saía da vizinhança - somente quando necessário. Nunca se via usando muitas cores. Era simples com sua rede no cabelo - algo sem razão de ser. Era bela. Uma beleza comum, não vulgar; tranqüila. Era a mulher transitando em seu bairro, da padaria para a loja de verduras. Era alguém, disso não havia dúvidas. Chamava-se Ana, sobre isso também não existia equívocos. Usava aquela rede no cabelo - algo muito estranho à compreensão. Mas quem era a figura feminina que caminhava pelas ruas do bairro em uma blusa amarela quadriculada, saia cinza e sapato escuro? Isso ninguém imaginava. Nenhum vizinho conhecia a sua história. De onde era? Quando foi mesmo que mudou-se para este bairro? Quem são seus pais? Amigos, há? Era solitária então? Ao menos só ela era! Mas quem era Ana, a mulher simples, magra, tranqüila, bonita e jovem; a criatura sem época que usava uma rede no cabelo - algo incomum -, na casa dos 25 anos, que comprava pão na Padaria e Panificadora Vitória e verduras na Venda do Seu João?
Sugerir um abandono,
ganhar asas e avistar um novo mundo.
Caminhar e caminhar para não saber aonde ir,
prosseguir infinito até o alcançar dos olhos.
Fazer do lugar-comum nova realidade e
experimentar a rotina como o não existir antes.
A vida em inesperado deslumbrar-se
é o som de palavras como possibilidade.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007


Artur Bárrio - Composição com figura


Um pequeno filhote de gato,
branco e molhado,
estendido pelo asfalto negro -
pensei me ver.
E eu nem gosto de gatos...
Sempre desejei te beijar,
mas tua boca é feita de neblina
e quando nasce meu sol
ela simplesmente desaparece.
Meus sonhos andam povoados de cinza,
são cúmulos-nimbos sobre minha cabeça
prontos a desabar uma tempestade de verão,
destas que levam carros
e carregam casas e coisas,
deixando as pessoas tontas ao sabor do tempo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007



René Magritte
Catapultar meu existir
em teus caminhos,
abdicar seguir meus sinais
desviando o existir por rotas fáceis.
Desistir de mim e culpar a ti
por me albergar,
crueldade amoroso-escapista.
Ser sádico e ser masoquista
ao fingir fugir de minha sina -
ser menos de mim.
Meu grito é seco,
é oco, é sem-sentido e vago.
Reflexo de um sem porquê,
é não-voz -
mudo desabafo.
Figura triste de um desconhecido,
forma confusa da identidade
de minha persona.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007


Antonio Sant'Elia - Studi per centrale (1914)
Ausente de um tempo sem futuro,
perdida em um presente de desacordos,
transito, totalmente tonta,
pelo centro nervoso de uma cidade
onde todos vestem carrancas,
figurino diário de conformismos.
Desvio meus olhos de seus rostos,
não quero petrificar meu destino.
Passo, incólume, por seus esbarrões,
Respiro...
E seus mecanismos,
engrenagens tristonhas,
despertam poesia
(vida tola, modernista-de-fim-de-século,
és o único sonho de muitos de nós).
O tempo do teu sono
deixou-me quase triste,
meio só.
Tracei caminhos pela sala,
descobri de lá para cá
novas rotas na planta de tua casa.
Olhei para um céu de onde pendiam
uma estranha lua e estrelas de 60 watts.
Tentei imaginar a vida selvagem
em cada buraco de parede,
nas frestas escuras dos tacos.
Sentei, levantei,
novamente me joguei no sofá.
Pernas para o alto,
cruzadas, almofadas.
Um demônio vermelho e digital
piscava na minha frente.
Rezei para o meu anjo da guarda sonado,
meditei mas a concentração sumiu.
Deixei meu último olhar estranho
sobre teu corpo largado
na extensão da cama.
Passei pela porta dos fundos,
como convém nestas horas,
e estou aqui dormindo
um sonho de poesia.

Oi pessoal,



o pensador lá do blog Algo se perdeu na tradução... - um dos blogs que eu mais gosto, mais visito e onde vivo deixando minha opinião - enlouqueceu de vez, e resolveu me premiar com o "The Power of Schmooze Award", que vem a ser um prêmio criado pelo Mike do blog Ordinary Folk . A idéia é dar o prêmio aos blogueiros que participam da blogosfera através de seus comentários, trocas de opiniões, enfim, a aqueles que, de alguma forma, tentam estabeler uma rede entre blogs e blogueiros, criando, principalmente, novas amizades sem se preocupar se o blog visitado está entre os mais populares ou não. E dentro desta idéia, se você foi premiado, deve colocar no seu blog um link daquele que te indicou, do Mike, que criou o prêmio, e fazer suas 5 indicações ao Power of Schmooze. Então, meus schmoozers indicados são:


Pensamentos

André Neves - Melhoramento constante


Cracatoa simplesmente sumiu


Meu veneno


Blog da Mélica


Um beijo a todos.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Clyfford Still - 1964



Life is but a dream *

Sons
Ana
o sol pela janela
a pintura expressionista
Um olhar
aquela música de começo tranqüilo
um ruído
Que pernas!
isso atrapalha minha atenção,
o ruído
O quadro ganhou um vermelho hoje!
o ângulo, isso me atrai nas pernas?
gosto de como vai acelerando
Deve ser a luz que causa intensidade
poderia permanecer parada aí
o final é inesperado
Se a luz bater toda manhã vai desbotar!
porque moveu-se?
esse ruído...

* primeiro verso da música Exquisite Corpse do grupo Bauhaus - álbum The sky's gone out
Varro tua casa
para nossos lixos
não contaminarem o ideal.
Passo tua roupa
para seguires sendo o desejado -
príncipe encantado?
Faço tua comida
para não sucumbirmos
ao inevitável.
Lambo tuas feridas
pois entraste na batalha por tua dama -
sou eu quem te clama?
Sugo tua língua
pois a saliva misturou-se à minha.
Deito em tua cama
pois necessito aliviar-te da calmaria -
nossa história ainda inspiraria?

terça-feira, 17 de julho de 2007

James Ensor - As máscaras escandalizadas

A common day in the life of Mr. and Ms.

A corrida até o topo de minha cadeia alimentar -
o nojo do pódio -
e o ódio despertado pela batalha insana.

Na manhã o café engolido a qualquer modo,
o almoço é inexistente,
adiante um jantar engasgado e o coito mal realizado.

Eu e tu - frustrados.
Segue o sono imbecil de zumbi pasmado.

Sonâmbulos - eu e tu -
estilhaços da teia rudimentar,
incógnita artimanha.

Armadilha posta,
isca saborosa,
caímos de boca em um delírio monumental.
Vertigem
meu corpo não cai nas tuas mãos,
sou pedra e rolo sobre teus sonhos.
Meus olhos jogam com teu desamparo,
mas tua fraqueza me derruba.
Me perco,
tu ganhas.
Sou prêmio barato folheado,
amanhecerei levemente esverdeado.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Mark Rothko

Queria a ausência e caminhou pelas incertezas para aonde levaram as estradas. A cada parada reconheceu rostos novos e antigas, rememoradas falas. Ainda carregava um mundo. Decidiu não parar mais a fim de desencontrar-se daquilo que trazia. Tombou. Em agonia sentiu nas costas seu mundo. Foi assolado pela compreensão de que caminhava não porque desejasse a ausência, mas sim, porque ela lhe movia. E a cada parada diante de antigas vozes novas era ela que estava presente. Não entendia como, lamentava os porquês, mas a ausência impregnava seu mundo. Ainda meio tonto, já quase sem ar, finalmente descobrui-se leve, mas por hora decidiu permanecer no canto onde jaz. Agora, diante das atuais certezas está imóvel...
*escrevi este texto hoje mas tinha resolvido não publicá-lo até ler o texto Slides do blog Algo se perdeu na tradução...


Kanagawa
Hipostasiar o momento em que o topo desta montanha mostrou-me a imagem daquele mar. Impossibilidade. Impossibilidade de sentar-me neste solo e criar raízes, alimentar-me da chuva e de sol. Impossibilidade da fotossíntese, do florescer; das escamas e guelras; do vôo e das penas. Impossibilidade de fazer-te experimentar o cume desta montanha e a visão de todo este mar. Sinto-me tão pequena, minúscula, entre a paisagem e a impossibilidade.
Somente manifesto
ligações
gicas;
quisera
osmoticamente um ultrapassar.

domingo, 8 de julho de 2007

Thomas Jones
Poderosa ilusão de paz ronda o ambiente,
ao longe pequenos gritos
misturam-se aos gritos dos pequenos.

Suspenso no ar um nada,
uma friagem premonitória,
augúrios, um porvir de medos.

Arrastam-se pelos cantos
silhuetas de olhar trespassado.
os rostos sérios fazendo com que corras,
teu semelhante é a verdadeira imagem do demônio.

A paisagem é cataclísmica,
casas fantasmas sem cor
deixam passar pelos buracos das paredes
qualquer resto de sol,
qualquer resto de lua,
qualquer resto de vida que não desejasse ser visto.

Minha terra branca de crianças anjo
tens agora a cor das armas,
do sangue coagulado.

Avança estranha,
indiferente ao azul daquele céu,
a poeira que se levanta deste solo triste.
Subtraí o tudo que tinha que,
dividi o disseram para,
noves fora aquilo que esperavam de mim.
Multipliquei o tanto que me devia,
somei a outro tanto sonhado,
calculei mdc, mmc, primo, nulo, raiz, quadrado.
Resultou-me a dízima,
sempre periódica,
da vida até aqui levada.

terça-feira, 3 de julho de 2007


Paul Signac
Casas pequenas enfileiradas,
marinheiros prontos para o embarque.
Os barcos jogados pelo movimento das águas,
pássaros marinhos e seus gritos -
estranhos cantos.
O cheiro do mar e teu gosto -
lágrima abandonada no cais.
Pura paisagem de fim de tarde...
Não sei o que você queria de mim,
mas me disse adeus de uma forma tão bonita
que passei a acreditar:
você desejava transformar-se em poesia.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Max Ernst
Soltar-te de minhas amarras amorosas
(imagem comum, fala tola).
Deixar-te enfim compreender
A ansiedade pelo teu caminhar e por meu medo.
Não admitir aquilo que se está a desejar sem certezas.
Eu - o lírico -,
Incongruência do meu próprio viver
A buscar um renovado mito.

terça-feira, 26 de junho de 2007



Lasar Segall - Duas figuras
Sabe tudo o que dissemos,
O quanto doeu cada letra,
Gesto, pequenas implicâncias
(nada mais parece ter sentido,
tudo soa indiferente).
Ridículos!
Crianças em grandes corpos
Desinteressadas do brinquedo velho.
Romeu cansou de Julieta,
Julieta enjoou de Romeu.
O peixe azul vivia naquele aquário redondo
Bem no meio da sala há muito tempo.
De repente colocaram – jogaram é melhor –
Um peixe amarelo lá dentro.
A partir daí foi uma guerra de cores
E a água ficou esverdeada.
Mas um dia o peixe amarelo amanheceu boiando,
Um pouco de lado,
E então o tiraram do aquário redondo.
Foi assim que o peixe azul desbotou, ali,
Bem no meio da sala.

sábado, 23 de junho de 2007

Edward Hopper - Eleven A.M.


De repente a vida escorreu por entre as pernas.
Sangue negro,
Coagulada forma já sem razão de ser era levada pela água,
Descia para um ralo qualquer,
Desaguaria em algum rio poluído, infectaria o mar.
E todos os sonhos, os nomes pensados,
As roupas – tão pequenas – escolhidas com gosto
Seriam nada.
Eram levadas as semanas de alegria,
A barriga, que ela jura ter crescido,
Os enjôos pela manhã e os desejos...ah, os desejos da madrugada !
De repente ela estava ali de pé,
Lavada,
Limpa de qualquer sentimento,
A espuma a desaparecer com a água,
Solvente de mil universos.
Estória torta
De uma formiga tonta.

terça-feira, 19 de junho de 2007

segunda-feira, 18 de junho de 2007



Toulouse-Lautrec - Au Moulin Rouge

Araucaria Angustifolia *

Tua cidade é feia, é fria, é cinza, embora os jardins sejam bem cuidados. Tua cidade desloca-se em ônibus infindos-monocromáticos e táxis abóbora-horrível, de preto pontilhados. Tua cidade de rodoviária gélida, peep show lacrimoso – se é que me entende. Tua cidade do centro histórico, cópia de qualquer outro igual. Tua cidade harmônica, planejada, reta, fantasmal. Tua cidade onde não me mostraram sorrisos e a moda era o casual. Tua cidade onde cada fêmea era colombina e não há carnaval. Tua cidade jovem, tua cidade exemplo, tua cidade onde os poetas ainda gravitam vampirescos e pedrosos. Essa tua cidade é minha lembrança tristonha de fase medonha. É toda poesia prosa. É feia, mas numinosa.

*algo no texto "Botas, bico fino, cano longo, domingo de sol " do Alessandro Martins levou-me a este...

sexta-feira, 15 de junho de 2007

René Magrite
Com a suavidade das tormentas
Os dias passam rápidos,
Soprar da brisa à beira mar.
A vontade mergulhou de cabeça
Em teus modos.
Sem ver o fundo, se deixou levar
Instintivamente
Pelos sons murmurados nas madrugadas.
O instante submerso
Despertou desconhecidos
Que eriçaram pêlos,
Causaram o acelerar de todo o corpo.
Mas me faltou ar,
Em teus beijos de Gênova,
Nos abraços Mediterrâneos,
Em gozos dessa terra.
Necessitei respirar...
Humanamente me debati,
Despertando-te lágrimas,
E meu coração se estraçalhou
Como nunca, quando meus olhos
Fitaram o sol acima
Daquela tênue linha d’água

quinta-feira, 14 de junho de 2007


Oscar Bluemner (1867-1934) - Sunrise
Pensar, pensar muito e não chegar aos porquês, continuar, porque assim se mostra necessário, não há muito por onde escapar... inevitável o estar aqui, o prosseguir por destinação... ser homem e carregar o peso e o mistério da humanidade... maravilhar-se! Ser redundante de plenas possibilidades. Viver o que há... ser, simplesmente, porque és sendo... diariamente reler a criação... poetizar-se...

quinta-feira, 7 de junho de 2007




Marc Chagall
A felicidade do outro pode parecer estúpida para ti, e assim era a de João. Um trabalho como outro qualquer, mero modo de subsistência, colegas se invejando e um patrão cujo nível de competência era questionável. A cada dois dias, no mínimo, João era chamado à atenção por ter esquecido de algum detalhe mecânico e burocrático de suas funções. Pensa você que João ligava para isso, ou para as risadas falsas de seus colegas de trabalho? Nada! Ele era um homem apaixonado e o dia-a-dia não lhe causava qualquer reação.
Do começo.
Nosso personagem é alguém normal, normal como eu e como você que acompanha sua história. Nasceu numa família suburbana, freqüentou colégios pagos. O pai de João era motorista de táxi, a mãe, dona-de-casa, fazia doces para festas a fim de ajudar na educação do seu João. Quanto a ele... Bom, foi um aluno aplicado, um dos melhores do colégio.
Com o tempo resolveu cursar Faculdade de Informática “a profissão do futuro” e continuou demonstrando que o futuro para ele era mesmo uma questão resolvida. Não que João fosse um desses rapazes que só vivem para o estudo. Ele era, como eu já disse, normal; namorava, tinha amigos, costumava sair para dançar à noite... A família se orgulhava do seu João.
Formado, conseguiu arrumar o tal emprego, e logo, descobriu que o seu futuro se resumia a cumprir ordens, ou melhor, a pôr em prática a idéia dos outros.
João teve a sensação de que em algum ponto de sua normalidade fora enganado. Começou a se questionar, a questionar os colegas que o olhavam com uma inveja covarde. Quase largou tudo o nosso João! Mas é aí que conhece Ana...
Ana que andava pelas noites trocando o que a natureza tinha lhe dado por dinheiro. Afinal, ela também pensava no futuro. Olha ele aí de novo, o futuro, que reservou o encontro de João com a bela Ana. E foi paixão à primeira vista. Ah as pernas de Ana! A boca de Ana! As curvas da bela dama! João se perdeu no tempo, a mãe se desesperou, chorou, rezou, implorou; o pai simplesmente o expulsou de casa. Seu filho tinha morrido.O seu João nunca se deixaria levar por uma Ana-da-noite, uma Ana-qualquer.
João tirou Ana da noite. Tirou também os questionamentos da cabeça. Colocou na sua mesa o retrato da musa, agora mulher. Passou a trabalhar com a velha normalidade, exceto pelos detalhes que esquece quando fica olhando o retrato. O futuro tinha chegado para João! Os colegas debochavam quando ele era chamado à atenção e perderam completamente a certa admiração. João nem ligava!
O João da nossa história - ou será a história do nosso João? - vai ganhar um novo personagem. Ana está esperando um filho e já descobriu que vem aí outro João. O João é só felicidade e não se aborrece com nada, só pensa no futuro do seu João.
João está feliz...
Precisava olhar
No fundo dos teus olhos
Para explicar o mar
Que sai dos meus.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Piet Mondrian

Capturei tua essência
No olhar aflito.
No gosto da língua
O corpo revelou mistérios.
O som de meu nome na tua voz
Transformou-me no que observa
Com indiferença.
Analisei o branco de teus dedos
E as pequenas gotas
Que brilhavam tímidas
Me renegaram.
Parti sem virar para o teu adeus,
Dei-te as costas como mais uma,
Fazendo com que teu coração
Sofra por tolos disfarces.
A angústia é uma flor
Arrancada de suas raízes.
Colocada em algum vaso na casa
Para que todos a vejam vive pouco,
E é logo substituída por outra.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

terça-feira, 29 de maio de 2007

Edvard Munch -Melancholy

Criaturas variadas de mim mesma,
Caleidoscópias cores de minhas formas.
Os pontos de vista de meus poros,
Pêlos e boca.
As razões de minhas curvas
E o imaginário do interior:
Ações, reações, pulsações.
Meu coração, solitário combatente pela vida.
Anatômicos pensamentos diários,
Leveza de se deixar ser.


Alberto Pancorbo-The red rose/ La rosa roja
Mantém-se de pé diante do quadro de paisagem bucólica segurando a lâmina.
Não compreende o que está acontecendo com a pintura de tua vida,
Que cores têm os rostos conhecidos?
Os contornos dissolvidos como aquarelas tingem os pensamentos.
A um observador tua figura de pé pareceria obra inacabada:
As mãos trêmulas, as lágrimas misturadas ao sangue, o olhar contemplativo...
Surreal a realidade do pintor.

domingo, 27 de maio de 2007


René Magritte
E tu já estás no amanhã. E eu ainda me sei ontem. Há o frio pela frente. A madrugada com pés desprotegidos? O que esperas? O grito? O desespero talvez? Pois dou-te o sono. O sono pesado pelo teu fantasma. O sono sonhado. O sono muito bem gozado. O sono sono. Sou-nos...
Quando Ana passava pelas ruas não pensava em coisa alguma, só caminhava. Um passo atrás do outro. Interessante era o vagar da bela. Aérea em seu flanar, pisava como se voa. Viajava em seus olhares sem perceber o não-estar. E lá sumia ela, um pequeno ponto a mais na calçada cheia, um momento a menos em sua companhia. Um deixar-se levar pelos andares sem nenhum mas...Ana, para que lado vais?

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Roy Lichtenstein

Dormir demais e continuar o pesadelo,
As pálpebras pesadas,
Confusas idéias,
O corpo pego de surpresa
Por uma tempestade em alto-mar,
E os humores são todos maus humores.
Desculpe amor,
Mas não tenho ânimo para teus beijos,
Cala-te, que algo de mim não te reconhece.
Talvez amanhã...
Preciso de insônia, escutar a escuridão,
Sonhar acordada para
Recuperar-me de noites bem dormidas.
Poetar para viver,
Viver poetando.
E o poeta vai pensando,
Em ser livre para voar.
E voando torna em pássaro,
Poesia ao cantar.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Egon Schiele

Quanto silêncio
Em meus pensamentos.
Falta direção às minhas mãos,
A caneta está cega.

Vazio exasperante
Tornado em buraco negro.

Energias exauridas
Pelo sol deste deserto;
Boca cheia de areia,
A língua seca.

Equatorial floresta –
Densa, quente –
Úmida mata de mim mesma.
Uma paixão louca
Andou invadindo meu porto-seguro.
Loucura de tempos atrás
Retomou o leme de minha traineira
Colocando a pequena embarcação de volta ao mar.

Tanto tempo se passou desde a última pescaria,
Tanto tempo ancorado firmemente
Sob sol e chuva
E a louca atira meu pobre barquinho ao mar alto.

Meu pesqueiro precisa de preparo,
Precisa de reparos, precisa ao menos retocar a cor branca
Para poder ser visto da praia,
Para que eu possa acompanhá-lo com os olhos,
Saber aonde vai, quando parar.

Mas para a louca nada adiantou:
Nenhum argumento, súplica, jejum, nada a demoveu.
E lá se foi contra a maré,
Lambida pelas águas, jogada de lá para cá, sem defesa,
A minha pequena embarcação.
Foi sendo empurrada, levada,
E eu não poderia ficar só olhando.

Por causa desta louca de tempos atrás
Aqui estou eu, em pleno azul,
Tirando água com caneco de dentro de um pequeno barco,
E nem lembro mais onde deveria estar.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Oskar Kokoschka


Hoje frutifica toda a ânsia,
Um arrepio segue pela pele.
O coração acelerado não chega
A dar conta do inefável arfante.
Tanto por ser dito e o nó na garganta...
Tantas elucubrações não elucidadas,
E os elefantes seguem possuindo trombas...

Arte menor

Tinha um corpo no meio do caminho,
no meio do caminho tinha um corpo;
tinha um corpo.

Na tarde da burguesia empobrecida
lá estava ele,
crânio alvejado, ar escasseando,
alma já quase ausente,
e os olhos fixos num infinito mistério
retiveram meu visualizar.

Poeta,
no meio do caminho tinha um corpo,
tinha um corpo no meio do caminho,
no meio do caminho

daquela gente que olhava
como se visse pedra
tinha um corpo poeta.
Por um momento, também eu,
pensei estar em pedra a tocar mas,

tinha um corpo no meio do caminho,
no meio do caminho tinha um corpo.
Tinha um corpo

estatelado, estendido
tropeçando em minha vida
com aquele mirar.
Um corpo tatuado em minhas retinas fatigadas,
de tanto fustigar.

Poeta,
nunca me esquecerei:

tinha um corpo no meio do caminho,
no meio do caminho tinha um corpo poeta,
tinha um corpo.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Jackson Pollock


Muito de mim se perdeu,
a maior parte nunca se encontrou,
e o que resta,
ninguém sabe a quem pertence.
Rasguei as fotos de cores ontem,
Embrulhei com papel de festa tuas quinquilharias,
Dobrei peça por peça tuas roupas com todo o cuidado,
Para que não amarrotassem demais.
Completo o ritual fui para a rua.
Festejei minha nova respiração,
Enchi meus pulmões de toda sorte de porcarias,
Caminhei por calçadas esburacadas –
Um olho no chão outro no passante
E não vi nada que interessasse.
Tomei café, minutos de recordações tuas,
Sorri alto e sozinha, um sorrir besta
De quem se sente solitário.
Passei por vitrines, uma praça,
Simplesmente passei.
Quando o sol abandonou a paisagem
Tracei o caminho de casa.
Me deparei com teu cheiro e a ausência.
Chorei por hoje e resolvi dormir pelo amanhã.
Este vampiro na noite - figura branca em vestes negras -
Longilíneo ser de minha crença,
Alimentando-se de lua, bebendo toda a boêmia de meus jovens amigos.
Este disfarçado ente de olhos marrons e mãos firmes
Derretendo sorrisos solares, conquistando, seduzindo,
Pronto a devorar minha alma antes do amanhecer.
Ah vampiro! se adivinhas meu desejo...

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Idiossincrasias.
Um anel sobre a mesa –
Anel de ouro;
A vela.
Lágrimas na frente do espelho,
Os primeiros cabelos brancos.
O silêncio...silenciar.

Nenhuma resposta para a pergunta inevitável
Você perdeu alguma parte dessa história,
Por onde você andava?
Nada de questões por favor,
Inútil tentativa de solucionar mais um porquê.

Caminha pelo corredor,
A porta para a rua,
Um sol já fraco pelo entardecer,
Observa...
Van Gogh

Ana foi-se triste caminhando pelas calçadas. Deixou-se fria. A roupa tornou-se pele. A boca trêmula não mais significava. Os olhos a embaçar o que há. As mãos pendiam sem razão. Os pés iam. Foi-se triste. Foi-se Ana. Uma cortina fina filtrando a paisagem. E Ana foi-se triste, caminhando sob gotículas de fino calibre. Foi-se meio morta, meio viva. Foi-se Ana. E o cão fitando toda a cena suspirou dolente: foi-se triste. Caminhando pelas calçadas deixou-se fria e algo dela aqui está.
Caminhei,
Tracei duros passos em arrastado corpo
Para além do espaço cotidiano.
Viajei de lá para cá
Entre iluminuras brancas de papel-arroz.
Ouvi estranhos sons em cadência absurda
Despertando uma irritação tristonha.
Vi belos rostos por entre apertadas setas melancólicas.
Perdi-me...
De palavras construir sonhares,
Letra a letra soletrar o perpetuar.
Agora, silabar sonoramente,
Uma vida a se mostrar.

domingo, 20 de maio de 2007


Klimt



Virgínia

A dor não permite perceber as cores –
O azul já roxo das flores,
Um amarelado do chão com areia.
Em outros olhos pode notar o quanto os seus estão
Vermelhos, inchados.
E se pudesse sentir como eles, sorrir.
Como serão aquelas vidas anônimas sempre em festa,
Sempre celebrando novos ares.
O seu corpo parecendo acompanhá-la há gerações,
Pesa com uma idade não correspondida.
As lembranças somem em qualquer quarto de algum
Lugar indefinido.
Os rostos são mosaicos, um pedaço de cada
E a luz passando pelos cortes.
Tudo foi um grande desperdício:
De vida, amores, solidões,
Gozos estúpidos, falsos gemidos, vazio...
Imensos vazios.
Agora o rio lembra a cama derradeira,
Com seus lençóis quentes, travesseiros,
O descanso para alma desistente.
Ainda se pergunta porque não percebeu
A festa que todos freqüentavam.
Os pés, sempre bonitos,
(sim, ela tem pés muito bem feitos, foi o que lhe disseram)
vacilam na beira, mas não há duvidas,
desta vez ela é toda certeza, e voa,
atira-se naquela cama como se fosse a do quarto dos pais,
onde, finalmente, consegue dormir sem medo, protegida do mundo.
Bebê berrou bravio.
Bondosa babá boquiaberta:
- Benfazejo babaréu!!!!
Ana foi-se triste caminhando pelas calçadas. Deixou-se fria. A roupa tornou-se pele. A boca trêmula não mais significava. Os olhos a embaçar o que há. As mãos pendiam sem razão. Os pés iam. Foi-se triste. Foi-se Ana. Uma cortina fina filtrando a paisagem. E Ana foi-se triste, caminhando sob gotículas de fino calibre. Foi-se meio morta, meio viva. Foi-se Ana. E o cão fitando toda a cena suspirou dolente: foi-se triste. Caminhando pelas calçadas deixou-se fria e algo dela aqui está.

Nenhuma vontade pela escrita,
Intolerância à exposição.
Enclausurar-se.
O ensimesmar da tarde nublada
Nos pingos da garoa
Que não chegam ao solo.

sexta-feira, 18 de maio de 2007


Van Gogh
Ir para a terra dos condicionais
Tateando o mundo dos conclusivos
E chegar a este lugar onde sou.
Quatro ovos brancos, gelados
Presos à porta da geladeira...
Galos de menos a cantar pela manhã.
Há cachos voando
Pelos meus sonhos.

(1988)


Paul Klee

Meu amor fugiu de balão -
Um bem azul e vermelho
Com aquela cesta na parte de baixo
(É bem bonito este tal balão!) -
Encheu de ar quente o seu coração
E está por aí, pelos céus,
Fazendo juras e distribuindo olhares ternos
A outras que talvez tenham, como eu,
Medo de altura,
Medo de balão...
Anita que não era nem tão bonita
Planejava tornar-se heroína,
Destas modernas e empedernidas.
Vestiu-se de chita, pôs laço de fita
E saiu pela vida
Dizendo-se Maria Bonita.

quinta-feira, 17 de maio de 2007




De palavras construir sonhares,
Letra a letra soletrar o perpetuar.
Agora, silabar sonoramente
Uma vida a se mostrar.
Chumbo rosáceo pendurado no céu,
Friagem outonal de paragens desconhecidas;
Junto uma lembrança de sensação tranqüila.
Ter um amor e pensar atemporal,
Metafísico conceber:
Pele, boca, olhos...
Infinito-agora de angulosas formas.

Impermanência

Bom,
Um
Dia,
Adeus...


Verde de pequenas folhas
Ingênua como o meu poetar
Sobrevive presa ao vaso
Como eu ao meu lugar.
Miosótis, se inicia teu desfolhar,
Escrevinhador, eu a te observar.